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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A Ordem dos Templários

A Ordem dos Templários

Alunos Online


Cavaleiros templários: usavam túnicas brancas com uma cruz no peito e adotaram como símbolo um cavalo montado por dois cavaleiros.
No século XI a Europa viveu um período de calmaria. Cessadas as invasões, o número de mortos caiu e, consequentemente, houve um crescimento na economia. Por conta dessa demanda, surgiu uma nova prática comercial que era a venda do excedente feudal. Tal atividade entrou em choque com o senhorio, que a cada dia via seus subordinados mais distantes de seu domínio. Como o pequeno mercado começava a se fortalecer, as relações servis começaram a ruir. Os senhores feudais, prejudicados, adotaram políticas mais severas a fim de amenizar seus prejuízos. Aumentaram a jornada de trabalho e as funções serviçais. Dos servos que não fugiram dos feudos, muitos foram expulsos.

Como o número de subordinados passou a decrescer a cada dia, o senhor feudal foi aos poucos perdendo o poder. Uma medida adotada para manter sua soberania foi o direito de primogenitura: os feudos seriam herdados apenas pelo primogênito. Os demais filhos deveriam procurar outros afazeres para sobreviver. Esse fato desencadeou uma onda de sequestros, pilhagens e outros crimes, já que alguns jovens deserdados encontravam na prática criminal, uma forma de sustento. A Igreja, poderosa entidade medieval, interveio. Com o intuito de erradicar a crescente marginalização, financiou exércitos que tinham como meta principal a retomada e defesa de territórios outrora apossados pelos árabes, entre eles Jerusalém, a Terra Santa. Esses exércitos enfrentavam muçulmanos em expedições conhecidas como Cruzadas.

Entre os séculos XI e XII foram organizadas oito cruzadas. Além da conquista territorial, as cruzadas também disseminavam as ideias cristãs, pilhavam especiarias, saqueavam mercados e dominavam povos. Tudo em nome da fé. A primeira cruzada (1096 – 1099) teve como maior êxito a retomada de Jerusalém, que estava sob o domínio dos árabes. Para proteger a Terra Santa foi criada a Ordem dos Templários.

Os templários firmaram morada em Jerusalém. O nome deriva de “Templo de Salomão”, em referência à ala que tomaram como sede, localizada no palácio do profeta. Também eram conhecidos como “Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão”, pois fizeram votos de pobreza e de castidade. Usavam túnicas brancas com uma cruz no peito. Adotaram como símbolo dois cavaleiros montados em um cavalo. Reza a lenda que, no início da ocupação, os templários se dedicaram a escavações onde encontraram documentos importantes e tesouros preciosos. Começava ali sua riqueza.

Como eram muito hábeis na arte da defesa e proteção, a população confiou neles. E além da confiança, começaram a depositar também moedas de valor, inaugurando na sede um verdadeiro banco. Acumularam fortunas e atraíram o interesse de outrem. Um deles foi Felipe IV, o Belo (1285 – 1314). Rei da França, Felipe tomou de empréstimo grandes quantias para o financiamento de suas guerras. E quando a cobiça gritou, acusou a ordem de heresia (por conta de suas práticas exotéricas), a fim de se apossar de suas fortunas. Os templários foram perseguidos e condenados pela Santa Inquisição. Os que escaparam da fogueira se refugiaram na Escócia, Inglaterra e Portugal. Dizem que se juntaram à maçonaria. Em 1312, o papa Clemente V dissolveu a ordem.

O apocalipse medieval

O apocalipse medieval

Rainer Sousa


Uma imagem medieval representando uma das passagens bíblicas que falam sobre o apocalipse.
A relação dos homens com o tempo é passível das mais intrigantes interpretações. A morte, por exemplo, revela pela simples observação de sua experiência, que a nossa trajetória pelo mundo é limitada por um período que se esvai no passar de apenas algumas décadas. Se por um lado, a finitude da existência instiga a busca pela eternidade, sabemos que esse mesmo fato instiga muitas outras pessoas a imaginarem um tempo em que todos nós experimentaríamos coletivamente o fim do mundo.

Logicamente, que a crença no fim do mundo está muitas vezes ligada ao desenvolvimento de um pensamento religioso. O furor dos deuses, a formação de uma nova realidade ou os vários pecados do homem são apenas algumas das justificativas que revelam a capacidade do homem em projetar o fim de sua existência. Mesmo que recorrente, vemos que existem alguns momentos da História em que esse tema ganha uma força, no mínimo, especial.

Em 999 d. C., uma parcela significativa dos europeus esperava que o mundo alcançasse o seu fim. Afinal de contas, em um período tomado pela fé cristã, muitos se assustaram ao saber das condenatórias palavras presentes no Apocalipse de São João, o último e ainda mais temido livro da Bíblia. Conforme suas próprias palavras, a passagem de mil anos seria marcada pela soltura do demônio na Terra e, consequentemente, a vivência dos mais terríveis pesares.

A partir da circulação dessa mensagem sagrada, qualquer indício se mostrava suficiente para que as temíveis palavras bíblicas fossem tomadas como uma incontestável verdade. A ocorrência de epidemias, o acontecimento de qualquer fenômeno natural de pouca recorrência, o nascimento de uma criança acometida por anomalias abomináveis... Tudo era desculpa para o desespero de comunidades inteiras. Na medida em que o ano 999 se esgotava, as situações de angústia e desespero eram ainda mais corriqueiras.

Mesmo o ano 1000 chegando e nada acontecendo, o temor ainda pairava nas mentes e corações de alguns cristãos. No fim das contas, as coisas só ficaram mais calmas com a chegada do ano de 1033, que obviamente marcava a passagem de mil anos do sacrifício de Jesus Cristo na Terra. De fato, mais do que simples crendice, todo esse temor tem uma relação direta com as incertezas e transformações que marcaram a passagem entre a Antiguidade e a Idade Média.

Turcos ou turco-otomanos?

Turcos ou turco-otomanos?

Rainer Sousa


Othman: o chefe político turco que deu origem ao Império Turco-Otomano.
Quando estudamos o fim do Império Bizantino ou a Primeira Guerra Mundial, deparamos com a designação dos chamados turco-otomanos. Mas afinal, qual é a diferença entre os turco-otomanos, que em diferentes momentos aparecem nos livros de História, e os turcos que hoje habitam a Turquia? Para obter essa resposta, somente nos deslocando para a Antigüidade Oriental.

Em sentindo original, o termo “turco” é comumente utilizado para designar as populações provenientes da região central da Ásia. A mais remota menção feita aos turcos surgiu no século V, quando um povo chamado “gokturco” apareceu nessa época como os sucessores da decadente civilização dos hunos que, até então, comandou a Ásia Central.

Entre os séculos V e VII os turcos desenvolveram sua economia graças a uma intensa atividade comercial. Entre os povos com os quais mantinham um grande número de acordos comerciais, se destacavam os chineses, mongóis, persas e coreanos. As rotas comerciais conquistadas pelos turcos compreendiam uma grande região que ia desde o nordeste da Europa, até o leste da China.

No momento em que o Império Turco começou a dar seus primeiros sinais de colapso, a expansão árabe conseguiu incidir sobre os rumos da civilização turca. Uma das tribos turcas convertidas ao islamismo, os chamados selêucidas, iniciou uma série de batalhas que conquistou partes do Império Bizantino. Entre os séculos XI e XIII, esse processo de expansão resultou no domínio sobre os principais centros urbanos da Península Ática.

Nesse período, uma tribo seminômade turca se deslocou do norte para a porção oeste da Pérsia. Coincidentemente a região vivia um período instável onde os selêucidas disputavam o controle da Pérsia com os mongóis. A tribo aliou-se aos selêucidas e, assim, garantiu a vitória desses contra os exércitos do guerreiro mongol Tamerlão. Em sinal de agradecimento, o sultão selêucida cedeu a esta tribo uma região de fronteira próxima ao Império Bizantino.

A pequena tribo iniciou a formação de um estado centralizado e expansionista sob a liderança de um monarca. Entre os diferentes reis deste novo Estado, destacou-se Osman I (ou Othman), que inspirou o nome “turco-otomano”. Os conflitos militares contra os bizantinos garantiram, séculos depois, a formação de um novo império.

No ano de 1453, sob a liderança de Maomé II, os turco-otomanos conseguiram conquistar regiões na Europa onde hoje se situam Grécia, Hungria, Bulgária e Sérvia. A partir disso, formaram o chamado Império Turco-Otomano que só se sucumbiu com os conflitos da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918).

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Dança

Por Keilla Costa




O Tango é um estilo de Dança
Sabe quando você pula de tanta felicidade? Quando você ganha um presente que tanto queria? Quando seu time faz um gol? Quando recebe uma notícia que te deixa radiante de felicidade? Pois é, essa felicidade torna com que o seu corpo se movimenta, e obedecendo a um ritmo interno tornando assim, uma forma de expressar os seus sentimentos.
Assim é a dança, é uma forma de expressão artística coordenada, onde você expressa todos os seus sentimentos, emoções, alegrias e outros, através dos movimentos. Geralmente, a dança com passos cadenciados é acompanhada ao som e compasso de música e envolve a expressão de sentimentos potenciados por ela.
A dança é uma arte, onde existem regras para que saia tudo com perfeição, e também exige habilidades, compromisso e muita dedicação para todos aqueles que fazem parte de alguma forma da dança.
A dança é considerada da arte a mais antiga e completa, pois você cria os movimentos e expressa através do corpo.

A presença da dança na vida do homem, sempre teve uma grande importância, pois o acompanha desde os rituais dos povos primitivos e seguindo até hoje.
Existem algumas danças mais conhecidas são: ballet, tango, samba, valsa, sapateado, bolero e muito mais...
A dança está, e sempre estará em nossas vidas.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Pós Guerra


A Guerra Fria dividiu o mundo em dois blocos: comunistas e capitalistas.
Em 1945, a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim, registrando milhões de mortos e um mundo dividido entre capitalistas e comunistas. Os Estados Unidos foram o país que mais lucrou com a guerra. Junto com os países da Tríplice Entente, impuseram taxas aos países perdedores; e, por serem economicamente estáveis, elaboraram políticas de reestruturação aos derrotados (plano Marshall). Do outro lado, a União Soviética também se destacou. Líder da aliança entre os países comunistas, a URSS disputou a hegemonia mundial, investindo em armamento bélico e tecnológico. Esse poderio, presente em ambos os países, culminou em um conflito político-ideológico chamado Guerra Fria.

De um lado, os capitalistas, representados pelos Estados Unidos. De outro, a União Soviética regia o bloco comunista. E o mundo se dividiu. Disputando a hegemonia mundial, através de uma ideologia forte, os blocos competiram entre si, a fim de consolidar seu poderio. Os EUA temiam o crescimento do comunismo e consequentemente o enfraquecimento de sua política imperialista. Já os soviéticos buscavam alianças, com o intuito de formar um bloco coeso e socialista. Por questões políticas, o choque entre os blocos resultou na divisão da Alemanha – derrotada na Segunda Guerra – em Ocidental (capitalistas) e Oriental (comunistas). Foi construído um muro, que dividia a cidade alemã de Berlim e simbolizava a tensão da Guerra Fria.

O risco de um conflito entre os blocos era iminente. Preocupados com um possível confronto, ambos investiram em armamento pesado. A URSS introduziu mísseis em Cuba, país socialista centro-americano, apontados para os EUA, que, por sua vez, construíram a bomba atômica, fortaleceram suas tropas e estreitaram os laços com os países mais frágeis, a fim de levantar um império. A Corrida Armamentista (nome que se referiu a esta competição bélica) gerou mais tensão ainda entre os blocos e influenciou outra disputa conhecida como Corrida Espacial. Os blocos investiram em tecnologia, construindo foguetes espaciais, satélites e organizando expedições de reconhecimento extraterreno.

Como o risco de um confronto era constante, os capitalistas se uniram, fundando a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Os comunistas responderam à altura, criando o Pacto de Varsóvia, união entre os países socialistas. Outros conflitos iam surgindo em consequência da guerra ideológica. Em 1949, a China enfrentou sua Revolução, liderada por Mao Tse-tung. No ano seguinte, em 1950, a Coreia, anexada ao Japão no final da Segunda Guerra, também foi dividida. Entre as décadas de 50 e 60, foi a vez da América Central. Cuba e Nicarágua também lutaram contra as forças imperialistas. A derrocada ianque se deu em 1964, com a Guerra do Vietnã, em que os EUA perderam e o orgulho estadunidense foi ferido. A situação começava a se estabelecer até que em 1989, com a URSS menos socialista e mais diplomática (após a morte de Stálin, líder russo), o Muro de Berlim caiu, a Alemanha foi reunificada e a Guerra Fria chegou ao fim.
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terça-feira, 5 de novembro de 2019

O genocídio bandeirante

O genocídio bandeirante

Rainer Sousa


O bandeirantismo foi responsável pela morte e exploração de um grande número de indígenas.
Usualmente, livros didáticos, reconstituições históricas, meios de comunicação costumam ressaltar uma imagem heróica dos bandeirantes paulistas que desbravaram os sertões brasileiros. Essa visão, perpetuada ao longo do tempo, vem sendo combatida por novas pesquisas historiográficas interessadas em desfazer essa perspectiva heróica que colocaram esse personagem histórico como um ícone positivo do nosso passado.

O primeiro ponto a ser questionado sobre o bandeirantismo gira em torno da idéia de que os mesmos empreendiam a livre busca de metais preciosos. Novos estudos indicam que o apresamento indígena foi a principal atividade dos bandeirantes, tendo em vista o desenvolvimento econômico da região paulista que passou a comercializar trigo e outras mercadorias com os centros urbanos próximos.

No entanto, a questão do uso da mão-de-obra indígena encobria uma verdadeira matança que, segundo documentação do século XVII, costumavam irromper a casa dos milhares. A escravidão, as péssimas condições de vida, a fome e as doenças acabavam transformando os índios em vítimas das duras imposições dos bandeirantes e proprietários de terra que usufruíam indiscriminadamente dessa força de trabalho.

Na medida em que os índios morriam pela mão dos colonizadores, o apresamento ganhava força maior para que fosse possível repor as perdas sofridas com a morte dos escravos. Dessa maneira, a escravidão indígena se tornou uma atividade corriqueira incentivada pela regularidade de seus mercados consumidores e os baixos preços investidos na obtenção desse tipo de escravo.

Apesar dos jesuítas fazerem frente à prática instituída pelos grandes proprietários da região paulista, as brechas na legislação da época permitiam que a utilização dos índios fosse preservada. Geralmente, alegando a chamada “guerra justa” contra os nativos “mais selvagens” ou usando a prospecção aurífera como desculpa, os bandeirantes conseguiam lucrar com a venda dos indígenas aprisionados.

Essas novas pesquisas históricas, ao contrário do que parece, não visam simplesmente desmistificar e criminalizar a figura dos bandeirantes. Antes disso, permite um novo olhar sobre as comunidades indígenas que tiveram que rearticular seu modo de vida frente ao processo predatório imposto pela colonização. A velha condição passiva e secundária normalmente atrelada à figura do índio perde lugar para as lutas e formas de sobrevivência dessas populações.

Entre outros episódios, os estudos históricos voltados à situação dos índios no período colonial trazem à tona a intensidade dos conflitos, a formação de novas comunidades e a resistência dos índios, principalmente dos guaianás, garulhos e guaranis. Paralelamente, o esforço político dos jesuítas também é destacado na decadência do uso da mão-de-obra indígena, quando os mesmos tinham interesse em controlá-los com o objetivo de garantir a expansão do cristianismo no ambiente colonial.

Com a redução da mão-de-obra indígena disponível, observamos que a economia paulista substitui a produção agrícola pela criação de gado, que exigia um contingente bem menor de escravos. Além disso, a descoberta de metais preciosos nas regiões de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás acabaram desarticulando o grande mercado gerado em torno do uso de índios como escravos. Dessa maneira, perdemos a visão heróica do bandeirante e reconhecemos um outro lugar a ser reservado ao índio em nossa história.

Câmaras Municipais do Brasil Colônia

As vilas e cidades da colônia, como previam as ordenações Reais, existiam as Câmaras Municipais. Representativas do poder local, as Câmaras ou Conselhos Municipais garantiam a participação política dos senhores de terras, membros da aristocracia rural, os “homens bons”. Eram presididas por um juiz ordinário e formadas por três vereadores, todos escolhidos localmente. Nas vilas principais, existia também a figura do juiz de fora, cuja nomeação era feita diretamente pela Coroa. A autonomia municipal era simbolizada pelo pelourinho, um marco erigido na praça principal da povoação.
As atribuições das Câmaras Municipais
As Câmaras Municipais possuíam inúmeras atribuições, como a nomeação de servidores locais, o exercício de papel de polícia local, a verificação do peso e do preço das mercadorias e a designação de procuradores, seus representantes perante o governo da metrópole. Além disso, legislavam em nível local, através das posturas municipais.
Em alguns casos, suas atribuições superavam os limites das vilas, influenciando na lotação de cargos da administração metropolitana ou exercendo encargos que eram privativos do ministério público, ignorando a autoridade do governador-geral e relacionando-se diretamente com Lisboa.
O poder das edilidades coloniais é explicado pelo caráter agrário que assumiu a colonização brasileira, uma vez que as vilas eram meras extensões do mundo rural, marcado pelo predomínio dos grandes proprietários de terras e de escravos. Assim, dentro da luta secular contra o centralismo, representado por funcionários e por órgãos metropolitanos, as Câmaras Municipais significaram, sempre, a força viva do localismo político.

O golpe da maioridade


A chegada de Dom Pedro II ao poder foi viabilizada pelo Golpe da Maioridade.
Ao longo de todo o período regencial, percebemos que o conflito político entre liberais e conservadores tomava conta dos principais espaços de discussão política do império brasileiro. Afinal, havia uma expressa preocupação em se saber qual modo de governo poderia oferecer estabilidade suficiente até que Dom Pedro II estivesse em condições de assumir o governo do Brasil. Entre tantos desafios, a postura rígida dos conservadores acabou tendo força para dominar politicamente a regência.
Defendendo a manutenção de um sistema político fortemente centralizado, os conservadores não tiveram só que enfrentar as críticas e a oposição de seus oponentes liberais. A partir de 1834, observamos que uma série de rebeliões expunha a delicadeza da recém-formada nação brasileira. Em diferentes regiões do país, grupos descontentes com a economia ou a estrutura política autoritária desafiavam a autoridade dos conservadores e ameaçavam a unidade do território brasileiro.
Interessados em ter maior participação política, os membros do partido liberal começaram a liderar um movimento reivindicando a antecipação da maioridade de Dom Pedro II. Mesmo jovem, o futuro imperador era popular e detinha a positiva imagem de um jovem estudioso que se preparava longamente para assumir o controle da nação. Dada essa situação, os liberais começaram a defender a aprovação de um projeto de lei que antecipasse o desenvolver do Segundo Reinado.
No ano de 1840, a mobilização dos liberais ganhou maior força com a organização do chamado Clube da Maioridade, que passou a difundir de modo mais incisivo a chegada de D. Pedro II ao trono. Não suportando as pressões e as revoltas que tomavam conta do país, os próprios partidários da ala conservadora se mostravam simpáticos à execução dessa manobra política. De tal modo, no dia 23 de julho de 1840, com apenas 14 anos de idade, D. Pedro II assumiu o Poder Executivo do país com aprovação da assembleia.
Em termos práticos, essa mudança não estabeleceu transformações significativas no cenário político brasileiro de até então. Conservando os pilares fundamentais da Constituição de 1824, D. Pedro II estabeleceu a organização de artifícios que distribuíram o poder político da época entre liberais e conservadores. Vale lembrar que, mesmo compondo diferentes partidos, liberais e conservadores tinham uma mesma origem social abastada e partilhavam de vários interesses em comum.
Por Rainer Sousa
Mestre em História

Fim do Primeiro Império


Impotente frente a seus opositores, Dom Pedro I abdicou o trono brasileiro em 1831.
A autoridade de Dom Pedro I, desde os primórdios de seu governo, sofreu forte oposição de setores políticos diversos. Seja por sua ineficiência e por suas atitudes autoritárias, Dom Pedro I foi alvo de críticas que desgastavam a ordem política instituída.
A imposição da Constituição de 1824, o episódio da Confederação do Equador e o envolvimento do rei na sucessão do trono português figuravam os principais episódios responsáveis pelo desgaste político de Dom Pedro.

No ano de 1831, a situação se agravou com novos episódios. Os jornais, já acostumados a criticar o rei, intensificaram seus ataques com a notícia do assassinato do jornalista Líbero Badaró. Tempos mais tarde, a chamada Noite das Garrafadas acirrou o cenário político, onde brasileiros não mais suportavam a influência dos lusitanos nos postos governamentais do país. Dessa forma, Dom Pedro I tentou reverter essa situação com a renovação do seu quadro de ministros.

Na semana posterior à Noite das Garrafadas, o rei criou um novo ministério liberal composto apenas por brasileiros. Em abril de 1831, em data próxima às festividades que comemorariam o aniversário da princesa Maria da Glória, Dom Pedro I ordenou que seus ministros tomassem medidas contra possíveis novas manifestações de repúdio. Não tendo sua exigência atendida, Dom Pedro tomou providências destituindo o ministério brasileiro e reintegrando antigas figuras políticas que apoiavam o autoritarismo monárquico.

Quando a notícia sobre o novo ministério chegou aos ouvidos dos populares, uma nova onda de protestos sitiou o Campo de Santana. A pressão política exercida pelos manifestantes foi em vão. Empunhando um exemplar da constituição, outorgada, Dom Pedro reafirmou os artigos que lhe garantiam o direito de nomear e demitir ministros a qualquer hora. A intransigência imperial só agravou a delicada situação. Os revoltosos do Campo de Santana passaram a ganhar expresso apoio de algumas autoridades militares do Império.

Com apoio político reduzido, Dom Pedro I não viu outra opção senão renunciar. Na noite de 7 de abril de 1831, o rei entregou ao major Miguel de Frias a carta contendo a oficialização de sua renúncia. No mesmo documento, o rei deixava seu filho Dom Pedro II como príncipe sucessor do trono brasileiro. Aos cinco anos de idade, Dom Pedro II teve seus poderes transferidos para um governo regencial, que duraria a até o alcance de sua maioridade.
Por Rainer Sousa
Mestre em História

Da Monarquia à República

Resenha Crítica
As razões consagradas tradicionalmente em nossa historiografia são suficientes para dar conta do processo que resultou na superação da monarquia e conseqüente instalação da República no Brasil? No trabalho em epígrafe, a historiadora Emília Viotti afirma que não. Segundo ela, é " lugar – comum" entre os historiadores sustentar a explicação histórica em cima de argumentos recorrentes e justapostos que não passam de interpretações superficiais e pouco objetivas. "Faltam estudos sistemáticos e de conjunto sobre a questão e as versões tradicionais continuam repetidas nos manuais didáticos," (p. 326) .
Para consubstanciar sua tese, Viotti propõe uma espécie de revisionismo historiográfico em que discute a qualidade das fontes selecionadas para a elaboração do discurso (documentos testemunhais) e o tipo de leitura que se pode realizar em função dos limites pertinentes à natureza de tais fontes (paixão, ignorância, inexatidão, etc.). De igual modo afirma que as primeiras versões apresentadas pelos monarquistas que consideravam a República um ato de insubordinação e revanchismo, e pelos Republicanos, necessárias correções de vícios, estavam eivadas de ressentimentos derivados de antagonismos entre tais grupos.
Para Viotti, o discurso produzido na 2ª década do século XX é marcado pelo presentismo justificador e pela influência positivista que opõe a noção de "ação individual x processo." É, de fato, na 3ª década do século XX que a historiografia realiza progresso. "Abandonando as versões subjetivas dos testemunhos, procuram os historiadores explicar a queda da Monarquia pela inadequação das instituições vigentes ao progresso do país".(p.225) E, desse modo, inaugura-se nova perspectiva de abordagem do episódio . É nesse particular que reside a contribuição da autora: fazer uma releitura do episódio com mudança de enfoque, promovendo reparos nas versões até então elaboradas e, assim, estabelecer novos parâmetros para a compreensão do processo de construção do projeto republicano no Brasil .
Após examinar, ponderar e expurgar os excessos da argumentação tradicional (a alegada tríade de questões: da abolição, militar e religiosa) estabelece o que na sua visão seriam os verdadeiros pressupostos para a eclosão do movimento republicano: as contradições entre os diversos interesses de grupos econômicos distintos; a distância das províncias em relação ao centro do poder e, por fim, a dificuldade de acomodação política das novas forças econômicas (muito condicionadas pela nova ordem econômica mundial então vigente) que acabaram por arrastar o regime monárquico a um nível de inércia que o inviabilizou definitivamente como projeto de governo. Enfatiza, ainda , a necessidade de atualizar o discurso historiográfico em razão dos novos horizontes da historiografia, o que ,segundo defende ,ajuda a ampliar o campo conceitual do historiador.
Emília Viotti da Costa é professora emérita de História da América Latina da Universidade de Yale (EUA), professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e autora dos livros "Da Senzala à Colônia" (Unesp), "Coroas de Glória", "Lágrimas de Sangue"(Companhia das Letras), entre outros. A historiadora, em tela, segue a linha da história social .
Da Monarquia à República: momentos decisivos, 5ª edição, VIOTTI, Emília da Costa, São Paulo, 1987 (p. 321 – 361).
Autoria: Giovanni Saraceni

Cabanagem


A Cabanagem mobilizou uma ampla parcela das classes subalternas paraenses.
Entre os principais conflitos do período regencial, a Cabanagem ganha especial destaque em função de sua trajetória de caráter popular. Na região, que hoje compreende as regiões do Pará e do Amazonas, a economia vivia em função de atividades extrativistas e o cultivo de culturas de cacau, algodão, tabaco e arroz. Além disso, a cidade de Belém estabelecia-se enquanto ponto maior das atividades comerciais controladas por portugueses e britânicos.

Na época, a estrutura econômica excludente e dependente da agricultura agro-exportadora concebia um cenário de desolação sócio-econômica das camadas populares. Ao mesmo tempo, a distância e a falta de assistência do governo central gerava um clima de animosidades por parte das esferas de poder local. Nesse contexto, temos um primeiro episódio conflituoso, quando em 1832 os paraenses pegam em armas para impedir a posse de um governador nomeado pelo governo regencial.

Resistindo à insatisfação dos paraenses, a regência nomeou o conservador Bernardo Lobo Sousa para governar o Grão-Pará. Impondo uma política essencialmente repressora, Bernardo Lobo perseguiu sistematicamente aqueles que oferecessem qualquer tipo de ameaça à sua autoridade. Tamanha inflexibilidade somente aumentou as tensões internas, que viriam a eclodir tempos depois.

No ano de 1835, um grupo de revoltosos tomou a capital Belém de assalto e assassinou o então governador da província. Nesse momento, lideranças da elite e das camadas populares surgiram com certa expressão. Resistindo ao movimento das forças regenciais, os cabanos entregaram o poder nas mãos do fazendeiro Félix Antônio Malcher. Em pouco tempo, as reivindicações mais profundas dos populares instigou a saída dos grandes proprietários desse movimento.

A partir de então, o comando da Cabanagem cai nas mãos dos Irmãos Vinagre e do seringueiro Eduardo Angelim. No meio tempo em que a rebelião se reorganizava, o governo regencial enviou tropas lideradas pelo mercenário inglês John Taylor. A vitória das forças oficiais não veio a se estabelecer de forma plena. Comandando mais de 3 mil populares, Eduardo Angelim conseguiu reaver o controle da capital paraense.

A chegada de Angelim ao poder dava pistas de uma vitória do levante popular. No entanto, a ausência de outras províncias participantes e a instabilidade política dos poderes instalados acabou esfriando o potencial revolucionário do movimento. No ano de 1839, a Cabanagem chegava ao seu fim com um trágico saldo de 30 mil mortos.
Por Rainer Sousa
Mestre em História

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O território brasileiro e sua extensão

O território brasileiro e sua extensão

Por Eduardo de Freitas




O Brasil ocupa grande parte da América do Sul
O Brasil ocupa o quinto lugar em extensão territorial com 9.372,614 km2, sendo superado respectivamente por Rússia, 17.075,400 km2; Canadá, 9.970,610 km2; China, 9.572,900 km2. São poucos os países que possuem territórios de grandes extensões, como é o caso do Brasil, que tem características continentais propiciando o desenvolvimento de uma grande variedade de paisagens, climas, relevos, além dos cinco fusos presentes no território.

O território brasileiro é pouco menor que toda a Europa, a diferença é que o continente Europeu possui 48 países com uma área de cerca de 10.360,000 km. Cada nação possui uma configuração diferente, cada território é determinado por acontecimentos históricos como colonização, independência, lutas religiosas, étnicas entre outras.

Um território organizado politicamente não se limita apenas à parte física (superfície terrestre), ele também abrange uma grande faixa oceânica em toda costa de seu domínio. O território é palco das relações políticas, administrativas, comerciais, que valorizam sua identidade nacional, como a moeda, língua, hino nacional e sua cultura como um todo.

Visualizando um território através de um mapa é possível notar o contorno de cada país, que é definido a partir dos limites territoriais, quando começa um e termina o outro (fronteiras entre países). A grande maioria dos limites territoriais é proveniente, em geral, por meio de acordos e tratados, muitos outros através de conflitos, dessa forma podemos afirmar que os territórios podem ser concebidos de maneira pacífica ou conflituosa.

Existem dois tipos de fronteiras, a artificial que corresponde à construção de um marco que determina os limites entre um território e outro e as fronteiras naturais, o limite dessas é determinado por um elemento da natureza como um rio, montanha etc.

Os territórios podem variar também conforme suas características geográficas, podendo ser contínuo ou descontínuo, o primeiro corresponde a um território que não é fragmentado quanto à superfície terrestre, o descontínuo se refere a territórios fragmentados como, por exemplo, os Estados Unidos que possui parte de suas terras distantes, a Dinamarca possui terras na Groenlândia que são isoladas do restante do país.

Legado Romano

Legado Romano

Rainer Sousa


Cultos religiosos públicos realizados pelos romanos.
Ao longo de sua história, a cultura romana foi nitidamente influenciada por diferentes povos. Muitas dessas trocas culturais desenvolveram-se com mais intensidade na medida em que o processo de expansão territorial romano foi ganhando maiores proporções. Mesmo estes chamando os estrangeiros de bárbaros, termo que diferenciava aqueles que não sabiam falar o latim, os romanos foram marcados principalmente pelas civilizações da própria Península Itálica.

POLÍTICA
No campo político, a questão do Estado e da cidadania fundava diversas concepções do cenário político romano. Saudar e defender Roma eram grande prova da valorização que o indivíduo tinha pela glória e o respeito às tradições do povo romano. Ao mesmo tempo, a organização da sociedade romana tinha muitos de seus aspectos vinculados às leis que regiam os mais diferentes temas do cotidiano romano. As leis eram formadas por diferentes códigos.

O Jus Civile era o principal conjunto de leis e era inspirado nos mais antigos costumes e tradições romanas. Desprovidos das mesmas benesses jurídicas, os estrangeiros tinham um código de leis próprio chamado Jus Gentium. Com relação às relações familiares, o direito romano destinava o Jus Publicum. A tradição jurídica em Roma consolidou diversas escolas de Direito que formavam os juristas responsáveis pelos processos jurídicos da época. Conservando seus princípios ao longo dos tempos, o Direito Romano influenciou a cultura jurídica de diferentes povos europeus.

RELIGIÃO
No campo religioso, os romanos dividiam sua prática religiosa entre os cultos particulares e públicos. Muitos dos cultos eram destinados aos gênios, espíritos e elementos da natureza. Os lares eram as divindades que tomavam conta da família e os penates zelavam da alimentação e dos bens materiais. Comidas e bebidas eram oferecidas em pequenos altares que reuniam os ícones representativos de cada uma das divindades.

Além dos deuses, os romanos também davam grande importância à reverência a seus antepassados que, mesmo depois de sua morte, poderiam conceder proteção e bênçãos aos seus sucessores. A classe sacerdotal romana contava com diferentes tipos de líder espiritual. Os vestais era um grupo formado por jovens que deviam manter acesa a chama do fogo sagrado, que atraia a atenção das divindades. Os flâmines eram sacerdotes responsáveis pelo culto de um deus específico. Os augures comunicavam-se com os deuses através de rituais sagrados e da observação da natureza. Por fim, haviam os feciais, que cuidavam do sucesso na relação com outros povos e nas guerras.

O culto romano ainda contava com um líder supremo chamado Pontífice Máximo. Sua principal incumbência era de controlar a passagem do tempo, garantir a regularidade das festas religiosas e recolher toda e qualquer manifestação útil na interpretação da vontade dos deuses. Com o passar do tempo, a religiosidade romana incorporou, com outros nomes a tradição religiosa do mundo grego. O deus Júpiter era equivalente ao maior dos deuses, e era esposo de Juno. Plutão era a divindade do além-vida, Netuno controlava os mares, Ceres era o deus das colheitas, Diana regia a Natureza e Marte representava a guerra.

COTIDIANO
Nos meios urbanos, diversas manifestações artísticas e esportivas eram desenvolvidas. A luta entre gladiadores, a corrida de bigas, o teatro e o jogo de dados eram algumas das atividades desempenhadas pelos romanos. A maioria da população vivia em casas bastante simples construídas em edificações de pequeno porte. Somente os mais abastados desfrutavam de uma ampla residência dotada de elementos decorativos, salas de banho, água encanada e rede de esgoto. As obras públicas demonstravam a habilidade dos romanos na construção de aquedutos, arcos e esgotos. Influenciados pelo padrão estético grego, prestigiavam as esculturas e a simetria das formas.

Entre homens e mulheres havia uma forte distinção que nos indica a feição patriarcal da cultura romana. Os homens podiam aprender a ler e escrever o latim e dominar conhecimento sobre matemática, arquitetura, religião, geografia e astronomia. Já as mulheres eram educadas com o claro propósito de exercerem funções domésticas ligadas a casa e os filhos. A educação regular romana era um privilégio para poucos, os jovens mais pobres reduziam seus saberes à prática da agricultura e do artesanato. Nessas mesmas classes menos privilegiadas, as mulheres podiam trabalhar ao lado do marido ou administrar um negócio próprio.

Comuna de Paris

Comuna de Paris

Rainer Sousa


Uma das barricadas formadas na capital francesa durante a Comuna de Paris, em 1871.
O século XIX foi palco de transformações políticas e econômicas que marcaram a ascensão da burguesia e o aparecimento dos movimentos socialistas. Esses dois fatos históricos perfilavam a configuração de um cenário bastante contraditório em Paris, capital da França. A cidade aproveitava os capitais de seu processo de industrialização para abrir bulevares, construir grandes palácios e belos jardins. Em contrapartida, seus trabalhadores viviam em cortiços insalubres e mal cheirosos.

Essa distinção social acontecia em meio ao governo de Napoleão III, que buscava ampliar os interesses do Estado e da burguesia com acordos diplomáticos e guerras que nem de longe tratavam dos interesses de seus mais humildes trabalhadores. Em 1870, Napoleão III se envolvia em uma guerra contra a Prússia, com o interesse de conquistar alguns territórios de uma Alemanha em pleno processo de unificação territorial. No entanto, seus planos não foram muito bem sucedidos.

A derrota na chamada Guerra Franco-Prussiana custou a destituição de Napoleão III da monarquia francesa e a instituiu um regime republicano controlado pelo general Louis-Adolph Tiers. A humilhação militar e a conturbação política da época serviram de incentivo para que a população se mobilizasse contra aquela situação vexatória. Em março de 1871, a população pegou em armas e expulsou a tropas prussianas que pretendiam controlar a capital da França.

Depois de defender de forma vívida a soberania do Estado Nacional francês, a população parisiense recebeu a notícia do aumento de impostos e aluguéis. Inconformada com tamanha arbitrariedade de um governo que mal sabia se defender, os trabalhadores saíram às ruas reivindicando melhores condições de vida. Assustado, o governo ordenou que a combalida Guarda Nacional sufocasse o protesto. No entanto, os soldados resolveram apoiar os manifestantes.

O caso de insubordinação inflou ainda mais o movimento de origem popular. Em resposta, o governo francês ordenou a execução sumária dos generais Clément Thomas e Lecomte. Logo em seguida, uma série de barricadas tomou conta da cidade de Paris e a Guarda Nacional tratou de organizar suas forças em pontos estratégicos para que os republicanos não retomassem o poder. Dessa forma, tinha início à chamada Comuna de Paris.

O governo popular chegava ao poder sobre forte inspiração dos escritos do pensador socialista Karl Marx e do anarquista Joseph Proudhon. Entre outras medidas, os chamados “assaltantes do céu” promoveram a separação entre Igreja e Estado, aboliu os aluguéis e os ricos palacetes saqueados. Enquanto isso, os republicanos assinaram um acordo com a Prússia pelo qual viabilizaram a formação de um exército com mais de 170 mil soldados.

No dia 21 de maio, as tropas republicanas deram início à chamada “Semana Sangrenta” que deu fim à comuna. Depois de experimentarem o poder durante setenta e dois dias, 20 mil dos revolucionários foram mortos e outros 35 mil encarcerados pelas tropas do general Thiers. Sem eleger heróis máximos, a Comuna de Paris veio a inspirar outras experiências de profunda transformação, como a Revolução Russa de 1917.

Maria Quitéria


Maria Quitéria: mulher, brasileira, soldado e guerreira.
A proclamação da independência do Brasil ocorreu em 1822, mas os portugueses não aceitaram o processo de prontidão. Essa resistência gerou alguns conflitos os quais levaram Dom Pedro I a organizar um exército pró-independência para expulsar de vez os portugueses das terras brasileiras. D. Pedro enviou mensageiros às fazendas para recrutar voluntários e angariar fundos para essa missão. Numa dessas fazendas, Serra da Agulha, Bahia, vivia Maria Quitéria de Jesus, a primeira mulher a assentar praça em uma unidade militar brasileira.

Maria Quitéria nasceu entre os anos de 1792 e 1797 no arraial de São José de Itapororocas, Bahia. Filha de Gonçalo Alves de Almeida e Quitéria Maria de Jesus, Maria perdeu sua mãe aos 10 anos. Sua relação com a terceira esposa de seu pai não era amistosa, o que levou Maria a passar a maior parte de seu dia fora de casa. Sendo assim, ao invés de aprender atividades voltadas à mulher do século XIX (como costurar e bordar), aprendeu a montar cavalos e a manejar armas de fogo. Quando os mensageiros pró-independência chegaram à sua fazenda, a fim de receber patrocínio e recrutar combatentes, seu pai não colaborou. Mas Maria demonstrou interesse em fazer parte do exército. Seu pai, possesso, não concordou, mas ela, determinada, fugiu de casa e se alistou nas tropas. Para não gerar desconfiança, cortou o cabelo, pediu emprestado um uniforme e se apresentou ao Corpo de Caçadores com o pseudônimo de soldado Medeiros. Duas semanas depois, seu pai, que há tempos a procurava, descobriu seu paradeiro e a delatou ao major Silva e Castro, comandante de sua divisão. No entanto, Maria já havia feito fama entre os militares, em razão da sua bravura e habilidade, e o major não aceitou sua baixa.

O batalhão dos voluntários era conhecido como “Batalhão dos Periquitos”, em virtude da cor verde da gola e dos punhos do uniforme. Nesse batalhão, Maria se destacou nos combates de Conceição, Pituba, Itapuã e Barra do Paraguaçu, onde liderou um pelotão de mulheres, impedindo o desembarque de tropas portuguesas. O exército pró-independência conseguiu expulsar, de vez, os portugueses da Bahia em 2 de julho de 1823. Por conta de seus esforços, Maria foi homenageada por D. Pedro ao receber a medalha de “Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”. D. Pedro, a pedido de Maria, pediu perdão ao pai da moça pela desobediência e Maria, perdoada, voltou pra casa.

Maria casou-se com Gabriel Pereira de Brito e tiveram uma filha, Luísa Maria da Conceição. No dia 21 de agosto de 1853, esquecida pela história, Maria faleceu. Cem anos depois, o Exército, na figura do Ministro da Guerra, rendeu-lhe uma homenagem: ordenou que todas as unidades militares passassem a ter um retrato de Maria Quitéria.
Por Demercino Júnior
Graduado em História

Abolicionismo


Divulgação/ABL
Joaquim Nabuco, o principal representante do abolicionismo no Parlamento brasileiro
A campanha cívica que pôs fim à escravidão no Brasil contou com a participação de vários setores da sociedade brasileira, à exceção dos grandes proprietários de terra - como os cafeicultores paulistas, que certamente perdiam com o fim da mão-de-obra escrava. É o que conta o historiador Marco Antonio Villa na entrevista que segue.

Como começou o movimento abolicionista do Brasil?

O abolicionismo foi um produto da década de 1880. Até então, o que havia eram tentativas emancipacionistas que queriam a extinção gradual do trabalho escravo, enquanto os abolicionistas desejavam a abolição total e imediata da escravidão.

Antes da lei áurea, a escravidão vinha perdendo força, não?


Sim. O primeiro golpe na escravatura foi a abolição do tráfico negreiro, ocorrido depois de 40 anos de pressões britânicas, através da lei Eusébio de Queirós, de 1850. Para os escravocratas, isso criou o problema de manter o trabalho compulsório sem o constante fluxo de mão-de-obra proveniente da África, devido à alta taxa de mortalidade entre os cativos causada pelas longas jornadas de trabalho, epidemias, castigos corporais e péssimas condições de alimentação e habitação.

Como os escravocratas resolveram esse problema?

Com o tráfico interprovincial. Entre 1850 e 1885, cerca de 150 mil a 200 mil escravos foram vendidos pelas províncias nordestinas para o sul cafeeiro. O comércio interprovincial aumentou devido à demanda sulista, mas também devido à crise da lavoura açucareira nordestina e os efeitos da seca de 1877-1879, que obrigou a venda de escravos em larga escala, acabando por se transformar em uma fonte de renda alternativa para a debilitada economia da região.

Houve outros fatores que favorecessem o emancipacionismo?

Sim, vários acontecimentos dos anos 1860. Por exemplo, a guerra do Paraguai, que se estendeu de 1864 a 1870. Milhares de escravos foram libertados para combater no lugar de seus proprietários. Além disso, houve a guerra civil americana, entre 1861 e 1865, que terminou com a vitória dos nortistas, favoráveis ao fim da escravatura. Houve a extinção da servidão na Rússia em 1861 e o fim da escravidão nos impérios francês e português. Tudo isso impulsionou o movimento emancipacionista aqui.

Os cafeicultores paulistas fizeram parte desse movimento?

É um equívoco associar os cafeicultores ao abolicionismo. Até as vésperas da abolição, o braço negro constituiu a base principal do trabalho nas fazendas de café. A introdução dos imigrantes europeus funcionou como uma fonte alternativa no fornecimento de força de trabalho, ocupou as brechas não preenchidas pelo trabalho escravo, que se tornava escasso e caro. A grande produtividade das terras da região permitiu aos fazendeiros paulistas adaptar-se mais rapidamente ao fim da escravidão, mas isso só ocorreu quando já não havia alternativa a não ser o trabalho livre.

Os cafeicultores eram a favor da escravidão. E quanto ao republicanismo?
O republicanismo teve pouca influência entre 1870 e 1885. A adesão de dom Pedro 2o à causa abolicionista abriu as portas a propaganda republicana, que começou a contar com o apoio dos conservadores. A relação entre os escravocratas descontentes com o apoio da coroa ao abolicionismo e o movimento republicano foi ficando cada vez mais estreita. A idéia republicana passa a simbolizar para os fazendeiros a possibilidade de manter seus privilégios de classe ameaçados pelo reformismo dos abolicionistas monárquicos, como Joaquim Nabuco e André Rebouças.

Joaquim Nabuco, aliás, merece destaque nessa história...
Certamente, a grande figura do movimento abolicionista, seu maior tribuno, foi Joaquim Nabuco. De 1878 a 1888 foi o principal representante parlamentar dos abolicionistas. Excelente orador e polemista, escreveu vários libelos antiescravistas e buscou apoio na Europa para o movimento, transformando-se num de seus símbolos e no alvo predileto do ódio dos escravocratas.

Quem participava do movimento? Quem eram os abolicionistas?
Gente de várias classes sociais, inclusive das elites políticas, como Nabuco, gente que pretendia reformar a monarquia, ou intelectuais brancos, como o teatrólogo Artur Azevedo e o poeta Castro Alves, ou negros como o advogado Luís Gama ou o engenheiro André Rebouças, ou mestiços como o jornalista José do Patriocínio. O próprio exército, que se formou na guerra do Paraguai e que contou com colaboração dos escravos. Além disso, as classes médias urbanas que começavam a ter significado na sociedade brasileira, os estudantes universitários, que vão desenvolver inúmeras atividades em prol da abolição.

Você pode dar exemplos dessas atividades?
Em São Paulo, por exemplo, a Sociedade dos Caifazes, um movimento abolicionista radical, liderado pelo advogado Antonio Bento de Sousa e Castro especializou-se em incentivar e organizar fugas de cativos. Utilizaram-se das ferrovias que, ironicamente, foram construídas para racionalizar o transporte do café, ou seja, a economia escravista, transformando-as em instrumentos que acabaram com a organização do trabalho. Do Oeste paulista, os escravos eram levados para São Paulo e daí para Santos, onde organizaram um grande quilombo, o Jabaquara, com cerca de dez mil habitantes.

A partir daí, como as coisas ficaram?
A abolição transformou-se num caminho sem retorno, quando o exército, em outubro de 1887, manifestou-se em petição à princesa Isabel, solicitando dispensa de perseguir os escravos fugidos. No final de 1887, a maioria dos fazendeiros acabou por se converter ao abolicionismo, ou melhor, por se resignar a ele. Em 13 de maio de 1888, depois de tramitar na Câmara e no Senado, a lei que abolia a escravidão foi levada à sanção da Princesa Isabel, que então exercia a Regência no lugar do pai. Não se deve ignorar a importância da Lei Áurea, que libertou cerca de 700 mil escravos que ainda havia no país. Além disso, criou mais ressentimentos contra a monarquia, abrindo caminho para a República.

Quais as conseqüências da abolição para a monarquia?
A monarquia brasileira foi sabiamente aconselhada a pagar uma indenização aos proprietários de escravos, mas não levou em conta o bom conselho. Resultado: perdeu sua base de apoio. Até a fração mais "moderna" dos cafeicultores do Oeste Paulista passou a temer que o império realizasse reformas para obter apoio político da massa negra recém libertada. A necessidade de impedir qualquer alteração no status quo afastou os cafeicultores da monarquia e os jogou nos braços dos republicanos.

Carta de Pero Vaz de Caminha

Senhor,
posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!
Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.
Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza -- porque o não saberei fazer -- e os pilotos devem ter este cuidado.
E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:
E digo quê:
A partida de Belém foi -- como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.
Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para poder ser !
Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas... não apareceu mais !
E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha -- segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas -- os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.
Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!
Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante -- por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças -- até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.
E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.
Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.
À noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. E especialmente a Capitaina. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados na popa, em direção norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água e lenha. Não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui. E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.
E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-pôsto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.
E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.
Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.
Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.
Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.
Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.
Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.
Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas.
O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim; e o da cabeleira esforçava-se por não a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram.
Sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e tinha seis a sete braças de fundo. E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis braças -- ancoradouro que é tão grande e tão formoso de dentro, e tão seguro que podem ficar nele mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus foram distribuídas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias fossem em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que foram levando nos braços, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo perto de duzentos homens, todos nus, com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levamos acenaram-lhes que se afastassem e depusessem os arcos. E eles os depuseram. Mas não se afastaram muito. E mal tinham pousado seus arcos quando saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais correria. E passaram um rio que aí corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga. E muitos outros com eles. E foram assim correndo para além do rio entre umas moitas de palmeiras onde estavam outros. E ali pararam. E naquilo tinha ido o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.
E então se começaram de chegar muitos; e entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam. E traziam cabaças d'água, e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem a bordo do batel. Mas junto a ele, lançavam-nos da mão. E nós tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma coisa.
Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, e a outros uma manilha, de maneira que com aquela encarna quase que nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar.
Dali se partiram os outros, dois mancebos, que não os vimos mais.
Dos que ali andavam, muitos -- quase a maior parte --traziam aqueles bicos de osso nos beiços.
E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos.
E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados d'escaques.
Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.
Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbana deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhes que se fossem. E assim o fizeram e passaram-se para além do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris d'água que nós levávamos. E tornamo-nos às naus. E quando assim vínhamos, acenaram-nos que voltássemos. Voltamos, e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não trataram de lhe tirar coisa alguma, antes mandaram-no com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, que lhe desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo, em vista de nós, a aquele que o da primeira agasalhara. E então veio-se, e nós levamo-lo.
Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por galanteria, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.
E com isto nos tornamos, e eles foram-se.
À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar de ninguém estar nela. Apenas saiu -- ele com todos nós -- em um ilhéu grande que está na baía, o qual, aquando baixamar, fica mui vazio. Com tudo está de todas as partes cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos nós, bem uma hora e meia. E pescaram lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe miúdo, não muito. E depois volvemo-nos às naus, já bem noite.
Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.
Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.
Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.
Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias -- duas ou três que lá tinham -- as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.
Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra.
Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não os punham.
Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam cabaças d'água; e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.
Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e sermão, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto lá estávamos foram alguns buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e de amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E depois de termos comido vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se aportou; e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa viagem.
E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolução foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui em lugar deles outros dois destes degredados.
E concordaram em que não era necessário tomar por força homens, porque costume era dos que assim à força levavam para alguma parte dizerem que há de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens desses degredados que aqui deixássemos do que eles dariam se os levassem por ser gente que ninguém entende. Nem eles cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam quando cá Vossa Alteza mandar.
E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui os dois degredados quando daqui partíssemos.
E assim ficou determinado por parecer melhor a todos.
Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos nos batéis em terra. E ver-se-ia bem, quejando era o rio. Mas também para folgarmos.
Fomos todos nos batéis em terra, armados; e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenaram que saíssemos. Mas, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal. E tanto que desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam; e outros se afastavam. Com tudo, a coisa era de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho, e por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos nossos e andaram assim misturados com eles, que eles se esquivavam, e afastavam-se; e iam alguns para cima, onde outros estavam. E então o Capitão fez que o tomassem ao colo dois homens e passou o rio, e fez tornar a todos. A gente que ali estava não seria mais que aquela do costume. Mas logo que o Capitão chamou todos para trás, alguns se chegaram a ele, não por o reconhecerem por Senhor, mas porque a gente, nossa, já passava para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas, daquelas já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, de tal maneira que os nossos levavam dali para as naus muitos arcos, e setas e contas.
E então tornou-se o Capitão para aquém do rio. E logo acudiram muitos à beira dele.
Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.
Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina, atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum.
Em seguida o Capitão foi subindo ao longo do rio, que corre rente à praia. E ali esperou por um velho que trazia na mão uma pá de almadia. Falou, enquanto o Capitão estava com ele, na presença de todos nós; mas ninguém o entendia, nem ele a nós, por mais coisas que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra.
Trazia este velho o beiço tão furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chalaças sobre isso. E então enfadou-se o Capitão, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho; não por ela valer alguma coisa, mas para amostra. E depois houve-a o Capitão, creio, para mandar com as outras coisas a Vossa Alteza.
Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles.
Depois tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde tínhamos desembarcado.
E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais montezes, e foram-se para cima.
E então passou o rio o Capitão com todos nós, e fomos pela praia, de longo, ao passo que os batéis iam rentes à terra. E chegamos a uma grande lagoa de água doce que está perto da praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares.
E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou. E levavam-lho; e lançou-o na praia.
Bastará que até aqui, como quer que se lhes em alguma parte amansassem, logo de uma mão para outra se esquivavam, como pardais do cevadouro. Ninguém não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais. E tudo se passa como eles querem -- para os bem amansarmos !
Ao velho com quem o Capitão havia falado, deu-lhe uma carapuça vermelha. E com toda a conversa que com ele houve, e com a carapuça que lhe deu tanto que se despediu e começou a passar o rio, foi-se logo recatando. E não quis mais tornar do rio para aquém. Os outros dois o Capitão teve nas naus, aos quais deu o que já ficou dito, nunca mais aqui apareceram -- fatos de que deduzo que é gente bestial e de pouco saber, e por isso tão esquiva. Mas apesar de tudo isso andam bem curados, e muito limpos. E naquilo ainda mais me convenço que são como aves, ou alimárias montezinhas, as quais o ar faz melhores penas e melhor cabelo que às mansas, porque os seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais! E isto me faz presumir que não tem casas nem moradias em que se recolham; e o ar em que se criam os faz tais. Nós pelo menos não vimos até agora nenhumas casas, nem coisa que se pareça com elas.

Mandou o Capitão aquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. E foi; e andou lá um bom pedaço, mas a tarde regressou, que o fizeram eles vir: e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nada do seu. Antes, disse ele, que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que levava e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após ele, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de feteiras muito grandes, como as de Entre Douro e Minho. E assim nos tornamos às naus, já quase noite, a dormir.
Segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. E de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o Capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.
E segundo diziam esses que lá tinham ido, brincaram com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades, outros de tanta feição como em pano de ras, e todos com os beiços furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns grãos vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.
Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas.
Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.
E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre, com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem lá esta noite.
Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo diziam, queriam vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram; e nós tornamo-nos às naus.
Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E enquanto fazíamos a lenha, construíam dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se ontem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.
E o Capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e que de modo algum viessem a dormir às naus, ainda que os mandassem embora. E assim se foram.
Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. Todavia os que vi não seriam mais que nove ou dez, quando muito. Outras aves não vimos então, a não ser algumas pombas-seixeiras, e pareceram-me maiores bastante do que as de Portugal. Vários diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves!
E cerca da noite nós volvemos para as naus com nossa lenha.
Eu creio, Senhor, que não dei ainda conta aqui a Vossa Alteza do feitio de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, e as setas compridas; e os ferros delas são canas aparadas, conforme Vossa Alteza verá alguns que creio que o Capitão a Ela há de enviar.
Quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para lá foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos, bem dispostos e homens de prol. Mandou pensar e curá-los mui bem essa noite. E comeram toda a ração que lhes deram, e mandou dar-lhes cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noite. E não houve mais este dia que para escrever seja.
Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, e veio-lhe comida. E comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua cadeira. E de tudo quanto lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido frio, e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.
Acabado o comer, metemo-nos todos no batel, e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. E logo que a tomou meteu-a no beiço; e porque se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço da parte de trás de sorte que segurasse, e meteu-a no beiço, assim revolta para cima; e ia tão contente com ela, como se tivesse uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela. E não tornou a aparecer lá.
Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir. E parece-me que viriam este dia a praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que outros o não podiam beber. Mas quer-me parecer que, se os acostumarem, o hão de beber de boa vontade! Andavam todos tão bem dispostos e tão bem feitos e galantes com suas pinturas que agradavam. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mil boas vontades, e levavam-na aos batéis. E estavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós estávamos entre eles.
Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até um ribeiro grande, e de muita água, que ao nosso parecer é o mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água. Ali descansamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos.
Ao sairmos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos em direitura à cruz que estava encostada a uma árvore, junto ao rio, a fim de ser colocada amanhã, sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo; e logo foram todos beijá-la.
Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim!
Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.
Nesse dia, enquanto ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir às naus, aprontavam-se logo para isso, de modo tal, que se os convidáramos a todos, todos vieram. Porém não levamos esta noite às naus senão quatro ou cinco; a saber, o Capitão-mor, dois; e Simão de Miranda, um que já trazia por pagem; e Aires Gomes a outro, pagem também. Os que o Capitão trazia, era um deles um dos seus hóspedes que lhe haviam trazido a primeira vez quando aqui chegamos -- o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui bem agasalhados tanto de comida como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar.
E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente, fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais. Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.
Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos!
Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção.
Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço. Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz; e ali lançava a sua a todos -- um a um -- ao pescoço, atada em um fio, fazendo-lha primeiro beijar e levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançavam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. E isto acabado -- era já bem uma hora depois do meio dia -- viemos às naus a comer, onde o Capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o céu, (e um seu irmão com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro uma camisa destoutras.
E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.
Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor.
Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.
Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.
Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.
Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos -- terra que nos parecia muito extensa.
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!
E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro -- o que d'Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha
Autoria: Fernanda Gomes