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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

História do Brasil Análise do livro de Murilo Mendes

Publicado originalmente em 1932, "História do Brasil", do poeta modernista Murilo Mendes (1901-1975), é um capítulo à parte na obra do autor. Tão à parte que quando se reuniu pela primeira vez o conjunto de suas obras poéticas, em 1959, no livro "Poesias - 1925-1955", o próprio autor preferiu deixar "História do Brasil" de fora, por considerar que ele destoava do restante de seu trabalho e que mesmo sua "face brasileira" ou "carioca" já estava representada por outros poemas.
Por "face brasileira" ou "carioca", você pode entender exatamente o caráter gozador de nosso povo, em especial dos habitantes do Rio de Janeiro, que já se acostumaram a rir de tudo, até nos momentos de calamidades.

Irreverência e malandragem lírica

"História do Brasil" encara a nossa história com o humor iconoclasta da primeira geração do modernismo (embora publicado dez anos após a Semana de Arte Moderna de 1922). A obra cria, "com irreverência e malandragem lírica, o reverso de nossa mitologia cívica", na definição do grande escritor Aníbal Machado (1884-1964).
E o próprio Machado ressalta: "o Brasil de Murilo Mendes está em contradição com o que foi ministrado em pílulas ao aluno na escola primária, pílulas preparadas nos arquivos entorpecentes e museus falsificados".

Jeitinho brasileiro

De fato, o que vamos encontrar nos 60 poemas que compõem o volume é um outro lado da história, focalizado por uma visão satírica, mas tão abrangente que consegue captar o espírito da história do Brasil ou o que há de genuinamente brasileiro em nossa história.
Mas os exemplos talvez sejam mais eloquentes que as considerações teóricas. Leia-se este breve poema de dois versos, intitulado "Homo Brasiliensis", típico poema piada modernista e repare no seu humor sutil:
O homem
É o único animal que joga no bicho.

Ou ainda uma obra-prima como "Linhas Paralelas" que consegue captar, com imenso sarcasmo, o absurdo burocrático-administrativo de todos os governos brasileiros - anteriores, contemporâneos e posteriores ao livro de Murilo Mendes:
Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mais ninguém vai nessa escola:
Não tem estrada para lá.

Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda para lá
Porque lá não tem escola.

"História do Brasil" também examina, debochadamente, as relações de favores que se estabelecem nos bastidores do poder, como fica escancarado em "Teorema das Compensações":
O bicheiro é vereador.
Depende do presidente
Da Câmara Municipal.
O presidente é meio pobre,
Arrisca sempre na sorte,
Ai! depende do bicheiro.

O bicheiro ganha sempre
Na eleição pra vereador.
E “seu” presidente acerta
Muitas vezes na centena.

Mas a obra não se restringe a apresentar, ironicamente, a nação e seu povo como um todo, como se vê nos poemas acima transcritos. Ela também focaliza, sempre sarcástica, episódios específicos de nossa história, que vão do descobrimento à Revolução de 30, passando pela Invasão holandesas, o quilombo de Palmares, a Inconfidência mineira, a Guerra de Canudos etc.

Pré-requisito

Para lê-la e entendê-la, porém, é preciso ter em mente que é pré-requisito ter conhecimentos da história do Brasil, pois o humor dos textos se baseia em referências e alusões específicos a períodos ou episódios históricos, cujo desconhecimento pode tornar os poemas sem graça ou ininteligíveis.
Nesse sentido, uma boa forma de se trabalhar o livro em sala de aula seria de modo interdisciplinar, em que os professores de história do Brasil e de literatura brasileira analisassem os textos conjuntamente, cada um dos quais explorando os aspectos específicos de sua disciplina que se veem nessa poética e muito especial "História do Brasil".
*Antonio Carlos Olivieri é escritor, jornalista e diretor da Página 3 Pedagogia & Comunicação.

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